|
Foto: VisitSamso
THORKILD BJORNVIG
( DINAMARCA )
Entre nossos poetas contemporâneos, Thorkild Bjornvig
(nascido em 1918) é com certeza o mais dado a reflexões.
Não obstante, é mais poeta do que filósofo e se utiliza, por isso mesmo, de símbolos para se expressar.
Se uma criatura humana, colocada diante da inevitabilidade da morte, for capaz de aceitar seu destino e sua culpa, então tudo lhe pertencerá: as maiores dores e as maiores alegrias; a solidão e a comunhão humana.
Estará em condições de se livrar do “Ciúme”, cinzas da fogueira do amor; e de encher-se de bem-estar e alegria, como “O Bordo”, quando, de repente, se enche de ruidoso grupo de tordos.
BRASIL EUROPA. Poesia da União. Projeto Gráfico: Christiane Borin de Souza. Brasília: Editora Moderna - Embaixada da Espanha, 20002. Capa: Silvana Matrievich, No. 10 967 Exemplar da biblioteca de Antonio Miranda Tradução de Andenson Braga Horta, Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera
TEXTO EM PORTUGUÊS
A BORDO
Há muito amarelou a árvore;
névoas da manhã, o dia todo
frisson de frio sob o calor,
insidiosa umidade sutil,
mordente visgo ao cair da noite,
na língua gosto de ferro,
é a geada que queima as folhas
e seca as hastes — e surge cedo,
no orvalho e na grama, réstea
de gelo, que foge do sol,
tudo mágico e aéreo, pleno
de adeus: de adeus sem nenhuma dor,
balsâmico ar de ser livre,
sem recônditas tristezas,
e depois, nada, nenhum plano.
Ouço então o bando de tordos,
frenético ruflar de asas —
de um jato vê-se a árvore
acesa de júbilo! As aves,
não sé a árvore que pertencem,
mas o limo, barro, ar e cor
e ao fervor de que nada sabemos —
ainda assim, enchem a copada
de êxtase, a árvore canta,
línguas e gargantas de fogo,
terremotos de som, pureza
que incendeia os ares — adeus, adeus;
mas aqui não é possível dor;
com tantos pupilos no ouvido
sei que a alegria é para sempre,
levai consigo minha alegria,
e embora inútil, juntá-la
é preciso com todo o fervor
que há, lá onde invejas fenecem,
e ciúmes, classes, agressões,
onde todos participam,
são parte do indiviso fervor.
Há lugar assim: de lá a vida vem.
Ninguém da alegria é dono,
nem eu, nem a árvore, o pássaro,
mas mais a árvore, o pássaro —
mas ninguém — escuta, já se vão,
azul sombrio do amarelo,
outra árvore agora se acende,
se acende também — pois silente
continua a queimar o bordo,
tão absorto em seu próprio calor
interno, que a copada flana —
perfeita, clara, calma, antes
da tormenta, do sombrio
novembro, do repouso hibernal —
e antes das vindouras noites frias
quando no chão as folhas luzirem
como brilho de sol na sombra,
brilho animado sem pausa
em mim e na árvores, onde encosto
a testa, enquanto trevas crescem
e cresce o coração, cheio de sol.
*
VEJA e LEIA outros poetas do mundo em nosso Portal de poesia:
https://www.antoniomiranda.com.br/poesiamundialportugues/poesiamundialportugues.html
Página publicada em fevereiro de 2026.
|